25 janeiro 2006

Não terá a persuasão limites?

Quem se debruça sobre as questões da disciplina retórica e da sua história, terá porventura como que a impressão do seu poder ilimitado. Terá também a noção da sua omnipresença nos nossos quotidianos de onde a violência se tornou ausente e onde a permanente discursividade persuasiva (política, publicitária, etc.) se tornou esmagadora.

Sabemos que um dos limites da retórica está na violência. Isto é o empreendimento persuasivo implica sempre uma renúncia à violência na imposição de uma vontade e o reconhecimento do outro como alguém que pode ser convencido. A violência impõe-se quando esse reconhecimento não existe e ou quando o diferendo esgotou todos os recursos de resolução persuasiva, negocial, retórica.

Essas situações vão, no entanto, desaparecendo das nossas sociedades hiper jurisdicionadas em que que a violência normal tende a ser controlada. Daí também essa sensação de não haver limites ao que com a retórica se pode conseguir, nomeadamente em termos publicitários.

No entanto, pergunto-me se não se estarão a atingir outros limites persuasivos e consequentemente retóricos.Desta vez não já os originais limites que marcaram a sua condição de possibilidade na renúncia à violência, mas os limites finais da própria exaustão persuasiva.

A publicidade será, porventura, sintoma disso mesmo. A sua presença, esmagadora e opressiva, no quotidiano contemporâneo não estará já a atingir os limites da eficácia? Alguém ainda será influenciado pelas suas obsessionais tentativas de persuasão? Não terá o embotamento da indiferença reduzido até ao quase anulamento a sua eficácia persuasiva?

Falo de indiferença, quase invisibilidade. Repare-se no seguinte: quando há uma campanha eleitoral, o que o vencedor mais prontamente promete e executa, sobretudo nas eleições autárquicas, é a "limpeza" da "propaganda eleitoral." "Limpeza" é, significativamente, a metáfora mais empregue para designar a remoção das mensagens persuasivas políticas, assim equiparadas ao "lixo." Atrás dessa subtil metáfora cognitiva vem, devido à sistematicidade metafórica a que um G. Lakoff alude, a da acção política como sujidade.

Isto preocupa as pessoas, os media e, normalmente, as acções de "limpeza" são unanimemente aplaudidas. A proliferação de cartazes, acha-se, desfigura a paisagem urbana e torna-a mais feia.

Só não se entende porque é que o mesmo critério não se aplica à restante proliferação propagandística, a da publicidade comercial. Já aí se não empregam as metáforas cognitivas do "lixo" e da "sujidade."

Mesmo quando essas mensagens, talvez para combater a crescente ineficácia traduzida pela indiferença, entram em delírio hiperbólico e começam a embrulhar fachadas inteiras de uma paisagem urbana tão emblemática como o Marquês de Pombal em Lisboa.


Prédios inteiros, embrulhados em percentagens de "spread" e outros "argumentos" financeiros, vão-se perdendo de vista. Não se trata apenas de tapumes cobrindo obras em curso ou fachadas degradadas. São prédios acabados de construir, feitos desaparecer à vista pelos seus possidentes bancários que procuram, naquela hipérbole espacial, "chamar" uma atenção desbotada.

Não será isto um sintoma dos limites atingidos por um sistema de influência persuasiva que esgotou as suas capacidades?