07 setembro 2005

Excerto de um livro não anunciado (256)

Como já se viu, pode acontecer que a retórica conduza à manipulação, mas o mesmo se dirá da discursividade em geral, pois como tão incisivamente sustenta Meyer, “censurar o discurso por ser manipulador reduz-se na realidade a censurar o discurso por ser. Porque está na natureza da discursividade apresentar-se desde logo como um responder, como resposta, tal como está nas mãos dos homens decidir encarar ou não esse facto, aceitá-lo ou não, jogar ou não o jogo, procurar os problemas subjacentes, enfim, pronunciar-se livremente ou fiar-se no que os outros lhe propõem, muitas vezes em função de interesses próprios” (*). A situação retórica será pois apenas mais uma entre tantas outras situações de vida em que os homens surgem no confronto de ideias, crenças, valores, opiniões e interesses, à procura daquilo a que Norbert Elias chama de “um certo equilíbrio entre conflito e colaboração” (**) nas relações que mantêm entre si.

(*) Meyer, M., (1994), As bases da retórica, in Carrilho, M. (org.), Retórica e Comunicação, Porto: Edições ASA, p. 70
(**) Elias, N., (1993), A sociedade dos indivíduos, Lisboa: Publicações D. Quixote, p. 199