20 agosto 2005

Amizade & Política

Já aqui defendi que a ideia de que a amizade é irracional é uma ideia errada e perigosa pois do facto da amizade se estabelecer num quadro de sentimentos e emoções não se segue que esteja para lá da razão, que seja apenas coração ou instinto. Afirmei ainda que a amizade só é coração se fizer sentido. Se não faz sentido ou não é amizade ou morrerá muito antes do coração deixar de sentir. Na altura tinha sob mira um infeliz editorial do DN, em que Pedro Rolo Duarte dava claramente a entender que na política não há lugar para a amizade. É a este tema da amizade na política que hoje regressa Henrique Monteiro, na sua coluna "Máquina da Verdade", do Expresso, nomeadamente, quando escreve:

Alguns comentadores afirmaram que se Mário Soares colocasse os amigos acima dos desígnios nacionais andaria mal; (...). O País, os interesses dos portugueses e da esquerda, etc, etc., não se compadecem com pequenas questões emocionais, dizem. Mas este argumento é uma falácia. A ética pessoal, a lealdade perante os amigos e companheiros de combate, não têm de ficar arredadas da vida política. Pelo contrário: é de elementar bom senso medir as grandes palavras e princípios enunciados na política pelos pequenos actos pessoais.

Exactamente. Os políticos não são meros bonecos mais ou menos articuláveis. São pessoas como nós e só enquanto pessoas nos poderão compreender e bem representar. São pessoas que, face às responsabilidades que lhes confiamos, precisamos de conhecer o melhor possível. Ora não há melhor forma de conhecer alguém do que observar os actos pessoais que pratica. Depois... depois deite-se a mão na consciência para responder à mais simples das perguntas: quem trai os seus amigos ainda pode ser uma boa escolha política?